Tudo caiu para cima de mim O mau tempo e o teu desdém A chuva e os ventos e o vazio De sentir-me irremediavelmente desprezado E os silêncios de uma condenação a estar só Veio o vendaval, vieram os relampagos Os sons furiosos em sobressaltos nos céus Águas milhentas salpicadas com gritos e fúrias Sobre mim Enquanto deixava de ouvir segredadas As palavras com que antes me saudavas Perdia o sorriso com que sempre me recebias E deixava de sentir o abafo teu, o teu toque Foi a tempestade que tudo tragou E me deixou para aqui, só, Enquanto entre a luz e o ribombar De milhentas lutas revoltas no céu Perdia, sem remédio, O sabor dos teus beijos E o calor de um abraço teu Foi tragédia, foi cataclismo Foi infernal hecatombe, fim de tudo, E no meio de uma formidavel tempestade Entre águas e ciclones, puxada de mim Te perdi para sempre E entre a escuridão e as sombras perdidas Aqui estou só e sem ti, No escuro, ao vento, à chuva, só. Sem ti...
Um dia parti Rumo ao desconhecido Levando comigo a força de uma guerra sem fim E de um sonho teimoso desejando existir Sempre
Um dia com o anoitecer Com as sombras envolventes e os vazios ao meu lado Subi mais alto que as nuvens dos céus E dali, bem lá na alturas Abracei as estrelas,e pisquei o olho à lua Que me observava inquieta.
Um dia quis acordar Mas percebi desse querer, e de tentar, Que efectivamente nunca tinha estado ali, Naquele espaço demasiado pequeno e estreito Nesse mundo apinhado e à deriva Catapultado entre galácteas e corpos Que é o lugar da vida de todos nós.
Um dia quis partir E acordei, de um inexistir permanente E pulei desejando ultrapassar o delírio De uma obssessiva e vitalícia ilusão Ou simplesmente, de um vago ser ou estar, Buscando mais que a descoberta De algo que pudesse encontrar Fora de mim, Pudesse paulatinamente Como num acordar prioritário Tocar-me, e olhar-me A mim mesmo.
Em busca de mim à procura de um existir Que se desconhece como real Mas que cremos é verdadeiro Parti. Em demanda, à descoberta Em peregrinação Em viagem sem fim Procurando encontrar bem no fundo A razão de tudo A essência Um pouco de mim.
Passa, passa de mansinho E toca-me, toca-me ao de leve Devagarinho. Toca-me na pele No meu rosto, nos braços Elevados, que ergo te chamando Toca-me, vento que vens do monte Vendaval que trazes contigo o cheiro do mar Ventania matinal que desafias o tempo Vem, vem à toa, como quiseres, mas vem, Desorientada a tocar meus sonhos Toca-me e fala-de de amor Do meu amor Dos meus eternos sobressaltos Que o coração cultiva sem regra Batendo sem governo, sem eira nem beira, Simplesmente batendo, por ti, além, lá. Vem, nos remoínhos ventosos, às voltas, Salta para mim e diz-me notícias De alguém que longe está, e perto sinto, Quando me bates no rosto, me atacas o olhar E me deixas lacrimejando de desejo Te imaginando a deixar Junto de mim O meu bem. Salta das nuvens, corre do sol, arrefece, Descansa nos meus braços, encosta a tua cabeça, Perde-te em mim que te espero há meia dúzia de séculos Entrega-te, vencida, perdida, de uma só vez, Para seres amada. Vem, vem e entrega-te, Dá-me o cheiro da tua pele, o toque dos teus cabelos O calor que de dentro de ti explode prometendo fantasias Vem, entrega-te toda em mim, queda-te aí, No meu campo de sonhos e delícias E aí, entre flores e canticos de beleza Nos tornaremos um só. Vem meu amor de longe, minha esperança, Vem do outro lado do mar, do outro lado do mundo Vem e vai, no embalar das ondas Vai e vem, ao colo dos ventos Para que comigo possamos livremente Voar os dois, nadar no azul do oceano Ou simplesmente percorrer os matagais de verde, Para que os dois, unidos, sós, Possamos transformar-nos em um sopro De luz e de fantasia, de paixão, entrega e alegria Vem, vem de longe, vem de vez, Para que os dois, porfim, possamos descansar Abraçados, entregues à promessa de um dia De nos amarmos até ao fim dos tempos. Vem, vem amor, do outro lado do mundo Para que seja possível esse amor sonhado Para que se torne realidade, a ficção inventada De um amor sem limites, sem terra, sem poiso, Que de verdade tenha só o ser, a entrega e simplesmente Ser só nosso. Meu e de ti, que para fazer verdade, só para isso, Vens do outro lado do mar, e te entregas a mim. Vem, vem ... entrega-te a mim.