21 janeiro 2017

PASSAR A PONTE É TRANSFORMAR UM AMOR QUALQUER...


...NUM AMOR FELIZ








Muitas vezes se escreve sobre o amor. Poetas, pensadores, escritores, filósofos, psicólogos invadem frequentemente este tema da maior importância e complexidade na vida do ser humano, buscando a sua identificação, caracterização, conteúdo, influências, causas e consequências, como nasce e como termina, e como influencia a vida de cada um.

Até hoje ninguém conseguiu escrever um Tratado sobre o Amor, e muito menos livros de enamoramento e paixão do tipo, "apaixone-se em 15 minutos para toda a vida", "encontre o amor da sua vida em 3 dias" "7 regras para um amor sem fim.

Poder-se-à mesmo, em meu humilde entendimento, que não tem bases de conhecimento nem técnico nem científico, mas apesar pragmático e reflexivo, dizer que em matérias relacionadas com o amor, não existem teorias seguras pois simplesmente os sentimentos não fazem parte das ciências exactas, mas das especulativas ou humanas.

Sabemos que um ser enamorado está normalmente mais feliz, mais dinâmico, mais expansivo que um ser desprovido de amor, e muito mais que um ser que sente na solidão um abandono.

Sabemos que amar é um estado a que associamos algo de maravilhoso, de fantástico, de feliz, e que se associa imediatamente ao acto de amar alguma coisa ou amar alguém, todo um enorme e variável conjunto de fenómenos, como querer, sonhar, desejar, sentir emoções, sentir alterações físicas, abandonar exclusividade do ser para que se proporcione uma relação com algo externo a nós, que queremos nosso.

Muitas vezes, depois de um conhecimento donde vem a resultar um estado de encantamento, entre duas pessoas sucede coincidir no mesmo desejo, de dando as mãos, e unindo os corações, caminharem juntos na mesma direcção.

Todos que amam e são amados sonham com o dia em que o seu amor deixa de ser uma promessa de futuro para se transformar numa realidade consistente, e que desejam sem fim.

Quando tudo decorre dentro dos padrões da normalidade, e cada um possuí o domínio do seu ser e dos seus sentimentos, e estão juntos, perto, o "acasalamento" pouco mais é que concretizar uma decisão a dois, e partir para um mundo novo, onde, não se perdendo a liberdade individual, sempre cada um acaba de entregar parte expressiva de si, por querer e vontade, e receber do outro. Digamos que realizou-se, fácil, o que os dois enamorados, noivos, desejaram, unir as suas vidas.

E, se souberem em cada momento perceber que a união dos dois, é um percurso que fazem juntos, mas mantendo a individualidade, que obrigatoriamente devem respeitar, e se nas crises derem as mãos e perceberem que nada na vida fácil dificilmente merece luta, vão empenhar-se em encontrar entre os dois os meios de superar a crise. Não existem casais perfeitos, como não existe o homem e a mulher ideal. No matrimónio, tem que dar-se em princípio a harmonização entre corpos e almas, e pelo caminho futuro há que encontrar a sabedoria para ultrapassar as crises e as dificuldades que existem em tudo, não apenas nos casamentos.

Mais complexo se torna o mesmo amor se está dependente de vários factores externos que os que se amam não dominam. Verdadeiramente, as dificuldades são uma prova constante, uma aferição permanente da capacidade desse amor, que mais não é do que a resistência que possuem os namorados para tolerar e viver com as adversidades. Podemos ter como problemas imediatos por exemplo uma separação espacial entre os noivos e a impossibilidade efectiva de se poderem unir num momento deliberado, numa data que se possa determinar, satisfazendo, deste modo, se célere, o desejo dos dois seres que pretendem seguir juntos.

Mas é um processo complexo. Diria mesmo que pode ser um dos melhores testes à resistência do que ama. É que perante fenómenos que se não dominam, e existe uma real impossibilidade de definir o futuro, a dois, com precisão, - o futuro a Deus pertence, e a vida é um conjunto de incertezas - que se vai perceber até que ponto cada um possui discernimento, sabedoria, capacidade de sacrifício, tolerância, em todo esse lapso de tempo necessariamente incerto, em que tem de existir um espírito de saber esperar, confiança, tolerância, aceitação das realidades, e sobre as suas próprias debilidades ainda encontrar forças para incutir no outro quando fraqueja.

É muito exigente manter um amor distante e complexo se um dos elementos do casal, ou ambos, não suportam a distancia, não tentam acalmar as suas legítimas ansiedades, desanimam com a espera, alimentam e inventam desconfianças, e todo esse estado de espírito é diariamente descarregado no outro. 

Em boa verdade, esse amor está condenado, cai em poucos dias. É a lógica, o conhecimento da natureza humana, um dos que ama sufoca, pressiona, dúvida, cria desestabilizações sucessivas, e o outro deixa de perceber naquele amor o equilíbrio desejado, a serenidade prometida numa vida a dois, a complementaridade que sentia no outro, e começa a sentir-se como que um ser "obrigado", deixou de ser um par, um igual, é um que interioriza de imediato uma tentativa de ser dominado, de se tornar abaixo de, quando a igualdade é condição essencial para uma convivência feliz e digna.

E quando a pressão chega ao limite de um ser pressionado ser colocado entre um sim ou um não, só tem uma opção, que seguramente o irá afectar toda a vida. Diz que sim, será sempre, ou vai sentir-se, manipulado, violentado, torturado, pelas pressões que outro não deixará de fazer pela vida fora. Ou, simplesmente diz não, doa o que doer, seja o que tiver que acontecer, mas pára ali.

Não arrisca atravessar a ponte. E, deste modo se acaba um amor que não tinha sucesso, dificilmente seria algum dia feliz, e evitou-se o risco de fazer a travessia sobre uma ponte que não parecia suficientemente forte para suportar mais peso. Mesmo que não seja uma decisão fácil, nem elegante, é a maneira de evitar o risco de uma queda futura que se tornaria bem pior para todos.

Não atravessar a ponte não quer dizer que seja um acto definitivo e para todo o sempre. A ponte que se mostra frágil e em riscos de ruir, pode vir a ser reparada. Depois disso, as travessias tornar-se-ão seguras e não existirá o receio de cair. 

A astrologia diz que grandes rupturas ou sacrifícios, hoje, podem revelar-se alegrias mais sustentáveis num futuro. Mas isso, naturalmente, obriga a acreditar nos astros. E quem só conhece a certeza e nunca tem dúvidas dificilmente estará disponível para se submeter a previsões de meros corpos solares vogando no universo.






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