21 julho 2016


DECLÍNIO! COMO ENGANAR A MÁQUINA DO TEMPO?










Hoje temos que consultar os astros para saber em que dias existem comboios naquela que foi conhecida pela linha do Leste. Aqui o ponto cardeal está trocado e deveria dizer-se a Este nada de novo. Para oeste vai o povo descontente à procura de vida. No oeste ficam aqueles que foram estudar e confiantes na sua capacidade e espírito de luta por lá se mantêm, organizam vida e relembram este Este condenado, tecnicamente já falido, moralmente já desfalecido, para abater qualquer dia.

O que havia de bom fugiu enquanto teve tempo - alguns se enganaram, aqui tudo é enganador, é mentira, é falsa promessa - e ficou o que não interessa a ninguém. A Indústria desapareceu, a agricultura não consegue competir e vive enredada em secas logo traídas por inundações, por mini tornados, e vendavais ou chuva de granizo. Curiosamente o agricultor que vem da Holanda, da Bélgica, da Alemanha e de outros países organiza-se, faz e prospera. Há aqui um problema de estar, o agricultor ainda parece o tipo que Miguel Torga narrava nos seus livros, gosta de copos, touradas, peito para fora, chapéu de marialva e andar rodeado de moços de estrebaria. As damas já se vê, com os subsídios aderiram aos Jeeps e aos chapéus cheios de glamour e pena de pavão.

Ficou o que já andava por cá no tempo do D. Sebastião, aqueles que não caíram na asneira de cair em Alcácer Quibir, e por aqui levavam os dias entediados, ora entregues aos petiscos, ora na caça à raposa ou ao javardo. Outros explorando a criadagem a pão e pouco mais e trabalho de sol a sol lá levantavam cabeça e tinham cavalo e corriam de charrete às feiras e bailaricos. Tinham filhos que nem conheciam, possivelmente nem as mães. Depois havia o senhor doutor, o padre, o boticário, o barbeiro que fazia operações e usava sanguessugas para limpar os sangues. Era um mundo parado no tempo. Como hoje.

A terra e as vilas, as cidades e os montes são de meia dúzia de senhores, de doutores, de espertos e outros fidalgos. Parece que o feudalismo nunca saiu daqui. O povo nunca teve nada, e acredito nem sonhos. Hoje sonha mas não tem nada. Crises endémicas só para alguns, que outros vêem-se engordar de um modo público que não engana. E tudo se resume a meia dúzia de castas, de famílias bem, de senhores da terra, de meia dúzia de cultos que por detrás das letras e sabedoria levavam o pouco que as gentes por aqui ou ali ainda tinham.

Hoje, mantêm-se esses dotados que tiveram um avô que sustenta a família até à sétima geração. Os empregos parecem dinastias, e ao presidente sucede a filha, e o neto já deve ter o lugar escondido não entre algum intruso à má fila. Isto ainda dá para os tradicionais, para os dos montes, para os toureiros, para os beatos de igreja, os afilhados dos padres, os parentes da fidalguia, e uns quantos que por sorte, por casamento, por arte se conseguiu colar ao populo crasso. A política veio catapultar muito burro a cavalo, e muito incompetente a gestor, e muito licenciado a homem de ciência, pelo menos nas promoções e nos salários.

Democracia? Isso é para oeste. Aqui vive-se cada dia com calma, sem pressas, há que aproveitar quando a maré está a dar e quem não está bem vá para outra paróquia. Fala-se tanto no interior, na desgraça de tudo estar a esvaziar como bola de borracha furada. Mas para que serve o interior. O interior só custa dinheiro. É gerido mal e porcamente. Faz-se tudo de qualquer modo e fora da lei se acaso interessa os glutões da zona. O interior é mandar camiões de dinheiro e não ver nada de resposta, cada vez está mais falido, cada vez produz menos, cada vez tem menos gente. 

Está tudo como o comboio. Umas vezes passa e outras deixa dias e dias as estações às moscas. Eram estações agora são ruínas. E antes tínhamos cidades e vilas e neste momento temos lugarejos, vilas e aglomerados vazios a fazer de cidades. É um engano, tudo parece crescer, mas cada vez há menos almas. É tudo uma ilusão. Um crime. Ó tempo volta para trás, que isto está pior que há cem anos. E mesmo com tanto doutor e engenheiro não se faz nada melhor do que já se fez. Agora é folclore e pantomina. O faz de conta. O passar o tempo devagar. E não fazer ondas, pode vir daí um mini tornado ou coisa pior.

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