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15 julho 2016

AURORA ALUCINADA




 

 



Um dia, que não existe como realidade exacta, não tem número, dia da semana nem mês e nem sequer o ano, mas sei que vão seguramente uns trinta anos, eu existia, sonhava, escrevia, pintava e fazia uma série de pequenas artes, com reduzido talento mas afincado esforço. Era, podemos catalogar, um artista de trazer por casa, e um poeta e pensador de baixa qualidade. Mas fazia alguma coisa, pensava e sonhava muito. E lia, lia imensos livros de poesia, de literatura, de história, de um modo geral tudo o que tinha a ver com o homem enquanto ser me interessava e ia lendo.

As minhas obras literárias publicadas resumem-se em escritos que perdi por completo, desapareceram com tempo. E de significado grande no interior perdiam essa intensidade na racionalidade. O que não falta é quem escreva. Publiquei um soneto creio que antes dos vinte anos num jornal regionalista. Pouca coisa logo se vê, nem me dá o direito a julgar-me autor, quanto menos escritor. E finalizei as minhas escrituras em jornais com um artigo de devaneio político de página inteira num outro jornal regionalista que tinha poucos dias de vida.

Mas nunca perdi a mania de senhor, de pensar, de reflectir e sobretudo esplanar as inquietações resultantes das minhas dúvidas, Procurava incessantemente respostas para perguntas e nesses labirintos do querer conhecer, ou querer saber, me perdia em divagações. Nada mais que isso.

Uns anos depois fui tecnologicamente evoluindo com os meios técnicos ou científicos colocados à disposição do homem, mas continuei a não encontrar respostas que tinha latejando no interior da minha cabeça, nem descortinava por vezes da realidade ou da ficção ideias que cresciam no meu interior e por lá ressequíam por falta de alimento.

Um dia, voltando ao inicio da história pintei um pequeno quadro a que coloquei o nome de "Aurora". Pintura simples a guache, não dominava quaisquer técnicas mais nobres de pintura e lhe dei o nome de um livro de um filósofo que então me dava o prazer de com ele reflectir um pouco todas as noites antes de dormir, Friedrich Niestzsche. Aurora parecia-me algo de maravilhoso. É quando nasce o dia. É, para mim, o começo de algo a que atribuo valoração sentimental ou simplesmente ocasional. É da aurora que tudo parte, que tudo vem. É um ponto, um vulcão, o inicio de algo que pode ter ou não limites, qualidades, sentimentos, infinitos.

Mais tarde, estando a fazer experiências com o meu novo entretém, a fotografia, e testando uma nova maquineta dos retratos, peguei no quadro da "aurora" e o coloquei de fundo, aqui na minha sala de trabalho, e fui buscar uma série de objectos que colocava na sua frente e ia fotografando.

E foi desse modo, imprevisivelmente, ao acaso, que surgiram essas fotos que hoje coloco.  Com a moto de cristal não obtive o efeito que encontrei noutros fundos que testei, pode ter sido da luminosidade, do dia, de outros factores, mas a moto não assume no seu corpo a multiplicidade de cores que o fundo da Aurora apresenta. Depois coloquei mais dois objectos relacionados. E assim, dou fé que continuo a fotografar, coisa que tinha anos não fazia, e desperto muito suave e lentamente para o mundo, meu, dentro de mim e que me envolve, e todos aqueles mundos que circulam como corpos celestes em nosso redor.



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