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12 junho 2016

O QUE VEMOS NO OUTRO QUANDO O OLHAMOS


O ROSTO PODE SER UMA CARTA

TEMOS DE OBSERVAR E VER







Com quantas pessoas nos cruzamos na rua em cada dia? Terminando o dia não sabemos sequer imaginar a quantidade das pessoas que passaram ao nosso lado, nos passeios das avenidas, à porta das lojas e empresas, nos transportes públicos, sentadas nos bancos do jardim ou à soleira das portas. Hoje, a velocidade com que se processa a nossa vida pessoal além de nos afectar o relacionamento familiar cada vez mais fugaz, menos aprofundado, cada um tem coisas para fazer, ninguém tem tempo, tudo está demasiado ocupado, impede-nos de olhar aqueles que encontramos na rotina diária. Mecanicamente olhamos para um lado ou outro, de vez em quando até olhamos algo que nos desperta curiosidade, um barulho, um ruído nos fez desviar o olhar, uma cor, um movimento, mas olhamos e seguimos em frente.

Paramos naqueles locais que gostamos e aí, nos poucos minutos que temos ocupamos o olhar damos alimento aos sonhos, assimilamos, sentimos qualquer sentimento, desejo, posse, gosto, mas retomamos o nosso caminho, o dever, a maldita rotina, as horas, o ditador do ponteiro não nos permite estar tranquilos, viver em serenidade, olhando o mundo e a vida que nos envolve.

E por vezes passamos ignorando seres humanos que apresentam-se diferentes do que é o status tradicional. Hoje de certo modo houve como que uma libertação da moda me cada qual se veste e compõe como gosta, mas pessoas há que se vestem não do que gostam, não do que olhamos e vemos expostos nas montras dos grandes vendedores de marca, mas limitam-se a cobrir-se face às intempéries e o modo como as vemos seria razão bastante para prender o olhar, olhar atento, ver, sentir. Há pessoas que têm um modo de vestir fora de época, chamam a atenção por isso, por parecerem vir de um passado que faz muito tempo julgávamos perdido não existindo mais. Mas a roupa, o vestuário, apenas nos encaminham para uma pessoa que utiliza essas peças que pareciam já não existirem há muito. 

Normalmente por detrás dessas roupas do tempo das nossas avós, escondem-se rostos cansados, que viveram muito, que passaram muito. E com a idade foi-lhes vedada a possibilidades de fazer novas opções. Novas escolhas. Provavelmente são pessoas sós e falta-lhes a ajuda de uma filha ou neta, ou sobrinha ou mesmo uma amiga para a ajudar na escolha de qualquer camisola, ou vestido mais deste tempo. E com a solidão esconde-se também um rosto inculcado de rugas, profundas, vincadas, que mostram o tempo e o desconforto, a angústia, a dificuldade de viver. É um rosto maravilhoso, limpo mesmo que não seja lavado com a frequência do exagero das limpezas, mas está livre de cremes, bases, pós, e outras coisas químicas que as outras senhoras colocam no rosto e assim ocultam a carta da sua vida. 

Estes rostos sulcados de rugas, estes olhos sem brilho - parece que esqueceram chorar - são um mapa aberto diante dos nossos olhos, e porque nos deixam apreensivos, curiosos, olhando atentamente, são cartas vivas, que emitem muito pelo que passaram e são. É uma beleza, estranha, pura, sem mácula, pois os olhos, os lábios, as faces, os cabelos, mostram ou fazem-nos especular sobre um interior que aparece sem qualquer traição à verdade. São espelhos. São expressivos são demasiado humanos e aí reside a essência de olharmos algo que não obedece às regras da habitual apresentação do ser, expondo um interior que seguramente tem muito que contar e que passou por muito. Eu quando encontro um rosto assim, seja de homem ou seja de mulher, fico a pensar. Tento beber o máximo de tudo aquilo que consigo ler, mas o faço de um modo que a pessoa não se sinta alvo da curiosidade gratuita de um qualquer intruso. E fica dentro de mim uma amálgama de pensamentos, de interrogações, e aquele rosto não me sai da memória durante uns dias. 

E fica comigo sempre uma ideia, um vazio, acho que deveria ter feito alguma coisa. Mas nem sei bem o quê. Pois primeiro que tudo está o direito da pessoa à sua imagem a ser quem é, com dignidade e respeito dos outros, e sempre temo que qualquer acção possa provocar um sentimento negativo de repulsa de repúdio por parte de um ser que assim sem mais nem menos se vê algo da atenção de um estranho. Mas depois fico a pensar se a senhora do lenço azul não gostaria de ser convidada com singeleza a tomar um galão, ou um copo de leite e comer um bolo. Ou se o homem cansado de rugas e pele seca e ultrapassada por tufos de barba de qualquer jeito, não gostaria de entrar numa taberna e beber um copo de três, com uma tapa qualquer. Fico a pensar. E tenho muito para reflectir enquanto o tempo vai dissipando da minha memória esses rostos que o tempo e a vida marcou.

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