28 abril 2016

DESMANDOS IRRACIONAIS

O PENSADOR

"O pensador é antes de
tudo dinamite, um
aterrorizante explosivo
que põe em perigo o
mundo inteiro"

Nietzsche





IRRACIONALIDADES OBRIGATÓRIAS



Há mais de 10 anos construí a minha casa em Fortios. Burocracias, plantas, projectos e amsi projectos, recordo uma interessante troca de opiniões quando estive nos Serviços Camarários no Departamento dedicado a obras e construções.


Dizia eu - os pensadores inventam casa coisa - perante a exigência de um Projecto de Instação de um Sistema de Gás Natural, que pretendia morar nos Fortios porque precisamente buscava o regresso às origens, onde numa lista enorme de vantagens em morar quase no campo, estaria a minha paixão pela comida feita na lareira. Vivi muitos anos numa quinta no meio rural e não havia nada melhor que as favas que a Alzira fazia na lareira. Razão bastante a meus olhos para justificar a isenção de ter de pagar por algo que não me ia servir de nada.


Mas a lei é lei - apesar do conceito elementar que as leis desprovidas de racionalidade, não devem ser seguidas - e tive de andar pela cidade à procura de quem faria um projecto de instação de uma coisa que eu não queria. Depois de encontrar, ao tempo pouca gente tocava em assunto tão exigente, paguei o referido Projecto cujo valor não recordo e fiz a entrega na Câmara Municipal de Portalegre.


E fiquei esperando o dia em que a Companhia do Gás me viesse fornecer esse bem, que as entidades públicas me obrigavam a utilizar. Admitindo, mas eu ando na lua, que se era obrigado a pagar para um meio - a instalação do sistema - segundo as exigentes regras da interptretação jurídica, que o que permite os meios com força de razão permite os fins, haveria de ser também alguém obrigado a colocar-me, para ligar no sistema, esse bem precioso.


Passaram mais de 10 anos, continuo à espera. E penso que a Câmara Municipal de Portalegre continuará a exigir estes Projectos mesmo aos municipes que pela área de moradia, ela mesma sabe serem totalmente inúteis, dinheiro deitado ao lixo e perda te tempo.


Tenho reflectido muitas vezes sobre este assunto. Na realidade a Câmara Municipal de Portalegre, ou melhor quem fez as leis, deveria obrigar a sua aplicação apenas nos casos de garantia de acesso a esse bem. E posso mesmo admitir que esse seria o espírito do legislador. 

Só que vivemos num país desgovernado que se chama Portugal, onde as pessoas são vistas como incautos atravessando o Pinhal de Leiria. Só servem para pagar, pagar, e pelos vistos paga-se pelo que se deve, pelo que se não deve, e por imaginações futuras. Isto com toda a certeza foi obra de economista.


Na minha casa não chegou ainda o famoso Gás. É verdade que a meia dúzia de caixas colocadas no muro da moradia dão um aspecto quase galáctico ao bairro e os estrangeiros percebem de imediato que aqui vive gente desenvolta, moderna, dominadora de tudo o que de mais avançado se faz na terra.


Deitei dinheiro no lixo. Este país é de facto governado por gente muito pequena e que enxerga muito pouco. Só vejo, e depois de intensa e demorada reflexão uma vantagem que esquecera até hoje, a valoração imensa que o imóvel tem quando de uma possível venda. O comprador fica fascinado seguramente em adquirir um imóvel como ligação ao gás natural. É uma compra a olhar o futuro. Uma rentabilização. Quando ele um dia vender a sua casa vai também ganhar uma pequena fortuna por ter uma casa avançada no tempo. Esse el dourado todo mundo quer.



Que o Estado é assim assim meio larápio - há quem diga isso - não contesto, que as Câmaras andam meio falidas e tudo o que vem à rede é peixe os munícipes entendem. E no meio de tudo isto só me irrita a pele, e me deixa noites sem dormir, pensar que nos dias de hoje existe gente que vive em casas desprovidas de sistema de gás natural. Qual será o futuro dessa gente, coitada?





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