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26 fevereiro 2010

Busquei na noite, o teu olhar...






Portugal foi sacudido por um mau tempo teimoso, persistente, que se recusa a ir, deixando os naturais a bater o dente devido ás temperaturas pouco convidativas para permanecer ao ar livre, para mais noite dentro. Quando não arrefece desapiedadamente, chove, vem vento, e uns agora inovadores mini-tornados, que possivelmente, como em outras coisas não costumeiras que por aí se podem ver agora, é fruto da modernaça globalização.

Acontece que este tempo não ajuda os apaixonados, que perdidos em busca de amor entre as escuras noites que se sucedem sem o alento de uma qualquer luzinha, e atrevem-se mesmo a apanhar severas constipações para não falar em gripes cada vez mais económicas que de simples vírus.

O meu médico assistente anda em cima de mim, voraz, atento, impiedoso, observando a batida da minha bomba cardíaca, não se apiedando do meu estado de militante enamorado. Ouve, volta a ouvir, e recomenda juízo, descanso, nada de esforços e que fuja das apoquentações como o diabo toda a vida, segundo ele, fugiu da cruz.

Mas que hei-de fazer se espero ansioso voltar a ver entre as luzinhas do céu os olhos da minha princesita do outro lado do mundo, quero dizer, do céu, ou do mar, ou mesmo de ambos. Ando inquieto, triste – sempre ouvi dizer que amar é sofrer – e recuso-me a qualquer distracção ou descanso. Olho o céu, busco nas estrelas, no luar, entre as nuvens que sempre passam apressadas, os dois brilhos penetrantes e maravilhosos do teu olhar.

Sinto que esse mar imenso, revolto umas vezes, que noutras parece um lago manso, sem fim, em vez de nos separar liga-nos, e o céu, não se revela muito mais que um espelho mágico que revela tudo o que por aqui parece sentirmos, cá dentro, sobretudo, o que bate desordenadamente, fora de ritmo no nosso coração.

Estou enamorado é bem de ver. Perdidamente. Sem remédio. E para cúmulo de todas as coisas enigmaticamente estranhas que povoam os mundos, por uns olhos que descobri um dia, no céu, entre estrelas, perdidos entre as luzinhas multicolores e faíscantes de pontinhos à deriva nos firmamentos. Uns olhos que me não saem já nem da alma nem do coração. Parece que já não necessito qualquer esforço para relembrar, qualquer pormenor que seja, esse olhar tornou-se, em boa verdade, um olhar meu.

Ontem saí pela noitinha, rua fora, e caminhei até mais não, até sentir que não podia mais, em todas as direcções, olhos no ar, olhando em cada segundo esse céu onde, a todo o tempo, esperava o suave milagre de ver os teus olhos. Mas perante um caminho que se revelava cada vez mais penoso e sem fim, e um amontoado persistente de nuvens negras que se uniram contra nós, senti-me incapaz, triste, sem forças.

Caíram algumas gotas de água, voltava o vento, levantava a chuva, regressavam nuvens e mais nuvens, com e sem água, e o escuro fresco e húmido nunca deixou que pudesse ver a luz do sonho, a miragem que é vida, o encanto que anima e nos enche de vontade de viver. Ontem, por mais que buscasse nos céus, por mais que percorresse caminhos e buscasse lugares, não encontrei esse olhar teu que me mantêm vivo, me faz sentir calor, e me enche de sonhos e fantasias.

Ontem senti-me perdido, só, abandonado. Ontem, não estive com o teu olhar, não vi os teus olhos, não pude perceber se sorrias, como sempre costumas fazer quando me visitas, cheia de simpatia, e ternura, lá dos altos.

Ontem não vi o teu olhar…







25 fevereiro 2010

Pé ante pé, maquineta a postos, e ... záaassssss



Escrevi no meu diário, hoje, quinta-feira, que toda a dependência que senti das infindáveis luzinhas que o céu da noite de ontem projectavam, e em que revi entre tantos pontinhos brilhantes, dois que revelavam claramente um olhar cheio de magia, tornavam aqueles momentos de contemplação, instantes reiterados de fascínio, transformando todo esse tempo, num delírio gostoso de entrega.

Acordei atordoado, percebendo dessa ausência de sã lucidez ou de físico anquilosamento, que esse período de tempo que parecera ter passado rápido, tratou-se, provavelmente, de um prolongado espaço de tempo em que não resisti a entregar-me, e a assimilar bem dentro de mim, todo esse encantamento delicioso que foi descobrir o teu olhar entre as estrelas do céu.

Incapaz de coordenar ideias, tomar decisões, deambulei, sem norte, sem querer nem ver, por aí. Deslumbrado ainda por toda essa vertiginosa demonstração de fantasia, que se recusou em manter-se doce sonho, para fulgorosamente se revelar ali, bem à vista do mundo, de todos, como uma revelação celestial, de um amor terreno.

Ainda agora confesso recordo a luz penetrante desse olhar que não consigo esquecer, e de tuso o que de trás se manifesta cheio de beleza, cor, promessa e futuro. No céu, ali bem no alto, se escreveram frases imensas, onde poeticamente seguiam compassadamente, declarações de amor sem fim, de ternura que busca afirmar-se, de beijos que voam, atrás de sonhos.

Confuso, creio que poucos mortais alguma vez puderam ver claramente aos olhos de todos o brilho de uns olhos apaixonados procurando se entregar, prometendo delícias e maravilhas sem fim. Confuso, dizia, recusei perder tempo em tarefas rotineiras, banais, que pudessem ofuscar esse luzir, essas fantásticas projecções de algo sem explicação que bombardeia dos céus um sentir da terra.

Caminhei à deriva entre campos, entre flores, sentindo o cheiro do mundo, das coisas, a musicalidade que o vento transporta e a duçura da vegetação bamboleando à minha passagem. OLhava, de quando em quando o céu, onde as nuvens alternavam pachorrentemente com amontoados de nuvens carregadas de escuridão prometendo choros. Nada revelava o olhar de algumas horas antes. O teu olhar. E caminhava, e seguia, e pensava, e sem ver, percorria caminhos, me distanciava do real que em cada dia me oprime e possui.

A natureza parece ter-se apercebido do meu alheamento permitindo que me perdesse, imaginando-te a meu lado, não admitindo que de alguma forma, pudesse perceber de modo racional, como, e para onde seguiam os meus passos. Os pés percorriam um desconhecido que parecia de lã, ou de nuvens, de macio e leve. Os olhos não destrinçavam claramente os tons naturalmente expostos, de verdes, castanhos, onde se deve e pode admitir, de modo seguro, um polvilhar, aqui ou ali, de coloridas manifestações da arte natural.

Num momento em que pareceu acordar, tinha à minha frente um pedaço de monte, de campo, de terra, entrecruzada de coisas e de vida. Verdes são os campos, dizia-se, e sem que me esforçasse por perceber, algo de um verde que nem parecia natural, moderníssimo, vivo, de ton de pirilampo, visualizei um gafanhoto que, tal como eu, parecia destoar naquela solidão, do mundo e da vida.

Companheiros de uma vaga de inexplicáveis realidades, ali, os dois, eu enamorado de uns olhos cheios de maravilhosa luz que me seduziram em plena noite entre a vastíssima mancha de estrelinhas do céu, e aquele animal, irrealisticamente parecendo real, e não de brinquedo como facilmente poderiamos supor, nos quedámos, num qualquer estado de ânimo, ou de falta dele, tão intenso, que só muito tempo depois, tocado pela verdade, percebi, a coincidencia, o estar, ali, de dois fantásticos seres tocados por algo sobrenatural, sem missão, sem estar, nem ser, pura e simplesmente existindo ali. Eu e o dito gafanhoto de cor verde luminosa.

Estupefacto por todo esse amontoado de coisas sem explicação, e sentindo que um dia teria de prestar contas, justificando, assustei-me com a falta de consistencia em fundamentar coisas que nem lembra ao diabo. Mas, se para os olhos lindos que me seduziram e apaixonaram, vindos de entre as estrelas do céu, não encontrava hipótese alguma de demonstrar dentro dos parâmetros que a ciência e a técnica hoje tanto exigem, corri ávido a documentar a existencia desse tal ser pequenito que ali a meu lado, solidariamente, nunca me abandonou, aprisionando o seu companheirismo, ao mesmo tempo que agarrava esse provocante esverdeado com que se vestira, em duas fotos, que a minha maquineta dos retratos aceitou realizar.

Tenho pena de não ter podido reter também toda essa pretensa fantasia, que senti bem real, e ainda tenho dentro de mim, dessa luz fascinante e encantadora dos olhos do meu amor, ali poisados, no alto, entre mil pontinhos brilhantes pululando, enamorados, em pleno céu. Tenho pena, de não poder maneter pertinho de mim essas luzes, nem ter comigo ontem à noite a minha maqueineta dos retratos. Talvez hoje, se a tivesse comigo naquele terno e sublime momento, tivesse bem viva a chama de sedução e encanto, e caminhasse feliz, entregue, escravo, dos olhos lindos e belos do meu amor.

Se...




24 fevereiro 2010

Ontem falei com as estrelas do céu



À noite,
Ontem,
Olhei o céu
Numa imensidão imensa
De legiões negras polvilhadas de luz,
De milhentos pontinhos brilhantes
Salpicando de magia
Um negrume sem fim.

Ontem,
Pela noitinha,
Procurando a fantasia
De tantas luzinhas tímidas,
Soltas, minúsculas, vogando
Sobre todos nós,
Descobri, bem por cima de mim
Dois pontos fantásticos
Enigmaticamente explodindo
Faiscando, intensos, enérgicos
E quedei-me ali,
Surpreso, aprisionado,
Olhos nesse mapa salpicado de luz
Sem noção do que quer que exista
Ou seja, nem do tempo, nem do espaço,
Simplesmente fascinado
E prisioneiro,
A olhar,
Aprisionado mesmo,
Pelas projecções de luz
Pela dança dos dois raios
Que lá do alto
Directos a mim
Me transformaram em estátua
Só, ali, sem agitações nem medos
Entregue, solicito, ser dado,
Olhando,
Sempre,
Naquele alto sem margens
Os dois pontos de encanto
E brigas de luz
No céu sem fim.

Ontem à noite,
Apercebi-me, por fim,
Que aquelas estrelas luminosas
Que tudo e nada parecem
Não sendo comparáveis com coisa alguma
Com um brilhozito sem igual
E onde todas as cores se revelam
(Existe ínsito, aí,
Nessa amálgama de fascínio
Amor,
Promessas,
Sonhos intermináveis),
Mais não eram, as estrelinhas,
Que a projecção dulcíssima
E linda do teu olhar,
E esses olhos me fascinando,
Me tocando quase,
Me transportaram, voando,
Ao outro lado do mar,
Do mundo,
Do que realmente existente
E do que não existe,
E, me aproximaram de ti.

Ontem,
Noite dentro,
Estivemos nos olhando,
Olhos nos olhos,
Eu e tu,
Falámos de amor,
De um dia,
De nós.

Pela noite fora
No céu estrelado de ontem
Estivemos juntos,
Lado a lado,
Imóveis, nos entregando,
E conversámos, e nos tocámos,
E prometemos,
Entre mil candeias acesas
Suspensas na quimera de um mundo
Que decidimos tomar os dois,
Um amor sem fim.

Ontem
Os teus olhos foram meus
E os meus, inquietos, loucos mesmo,
Se entregaram, felizes, a ti,
Na magia da noite,
À luz das estrelas,
No sonho,
Na luz do teu olhar,
Ontem...

08 fevereiro 2010

O nosso ponto... de encontro


Entre a teia da aranha disfarçada num lugar inacessível, onde a predadora espera friamente a incauta vítima, e o labirinto de galhos que em todas as direcções se entrecruzam na espécie de árvore que é a nossa vida, existe, na complexidade de figuras, de quadros, de vias, uma semelhança que não deixa de nos fazer reflectir nos milhentos perigos, que nas duas exposições se projectam.
A terrível aranha edifica laboriosamente essa intrincada teia, essa espécie de rede de perdição, onde se vai perder um qualquer bicharoco, que por ali, naturalmente deambulava.
Nas ramificações da aparentemente desorganizada vidovia, tal qual na teia de seda, encontram-se ocultos perigos, dificuldades, tensões, circula-se aí, muitas vezes inconscientemente, desafiando as leis da física, e defrontando desabrida ou irresponsavelmente a própria morte. Cada passo, cada momento, uma paragem, um tomar de fôlego, um quedar-se para ver, ou somente estar, podem traduzir-se num instante carregado de dramatismo, num momento de perturbação, num confronto entre uma realidade que repentinamente se nos pode revelar das piores formas. E tudo isso, quando tranquilamente, caminhamos, igual a todos os dias, do mesmo modo, por locais que nos parecem familiares, onde tudo se nos afigura rotineiro e pacífico.
A vida, nessas veias ecurecidas que marcam todas essas ruelas por onde viajamos, não é mais que enfrentar a multiplicidade de desafios, que optar en cada cruzamento, em cada entroncamento, onde nos é possível fazer escolhas, decidir, escolher, num vazio que nos leva ao futuro, a fortuna de transitar na rota premiada, ou uma penalização porque se não soube, no momento certo, virar para a avenida do nosso encantamento.
Alguns caminham tendo como objectivo chegar a um determinado ponto da nossa árvore, tomando em cada momento a decisão que parece a mais acertada para, nessa direcção, ali chegar, e desse modo, realizar, de modo consciente um acto querido ou a execução efectiva de um interiorizado ideal.
Outros, sabem que a direcção é uma, mas nem sempre tomam as vias mais curtas, ou mais seguras, perdendo-se, em atalhos, em contratempos, mas seguindo sempre, crendo, a maior parte das vezes da oportunidade das suas escolhas, e da certeza de chegar. Mesmo que o caminho seja semeado de ziguezagues, de voltar a trás, de espreitar, de mil hesitações, uma vontade e uma força inexplicavel, parece arrastar o indivíduo para o seu fim, mesmo as mais das vezes, pareça que não se empenha em avançar. Mas avança, defronta perigos, pontos desconhecidos, lugares sombrios, mas sempre termina por descortinar a luz e segui-la.
Alguns, nunca vão entender como circular em segurança entre essas milhentas ramificações da carta da nossa existência. Vão olhar, vão sentir-se perdidos, desorientados, e a cada debruçar sobre os ramos, vão responder, por desconhecimento ou impossibilidade de escolha fundada, tomando de assalto, sem qualquer sentido, desde as mais amplas avenidas que seguem rápido para o outro lado do seu lugar, distanciando-se dos objectivos, ou entrando em becos solitários, em ruelas escuras, perdendo definitivamente a sua ideia de norte.
E a vida de cada um é composta de milhentos momentos que se sucedem, de imensos lugares de encontro, sitios onde descansamos serenamente para em seguida retomar o caminho do lugar seguinte. Vamos conquistando as nossas praças fortes, onde nos alimentamos, onde revigorados, preparamos uma, e outra, e muitas mais caminhadas. Vemos castelos, palácios, atravessamos prados, e por pontes seguras atravessamos cursos de água. Vencemos montanhas, vales, cautelosos atravessamos frondosos bosques, e temerários pulamos entre as ondas esverdeadas de agitados mares. Temos de desviar o olhar de inúmeras tentações que existem somente para nos desviar do rumo, e nunca podemos ouvir o canto das sereias que seguramente nos condenariam a um género de feliz morte. Não podemos parar. Não podemos desistir. Temos que habilmente escapar de aranhas escondidas e que esperam filar-nos como seu veneno à nossa passagem.
O mundo é como uma teia de aranha, e nós não poderemos nunca permitir-nos ao luxo de baixar as guardas, seguir distraídos, perder-nos nas teias mortíferas onde poderemos cair. Os ramos da nossa árvore levar-nos-ão, momento a momento, passo a passo, ao ponto de encontro, a esse lugar para onde devemos dirigir o noso caminho e onde poderemos encontrar, por fim, a tão almejada felicidade.
Aí, chegados a esse lugar cheio de fantasia, acabaremos por perceber que o caminho nem sempre foi fácil, mas se nos dedicámos, se nos empenhámos a sério, se fizémos sacrificios, valeu bem a pena desafiar e ultrapassar os obstáculos, encontrar e defrontar as inúmeras aranhas que ao longo da nossa vida não deixarão de tentar barrar-nos a jornada, e atingir-nos com o seu veneno, e que não foi em vão percorrer todo esse caminho muitas vezes labiríntico e cheio de perigos.
O mundo é uma bola, existem aranhas, serpentes e outros animais, selvas, caminhos, pontes e praias. A bola está sulcada de veias, parecendo um coração onde o sangue jorra violento buscando vida. E nós, em busca da nossa liberdade, tratando de garantir o nosso existir, temos de seguir viagem, defrontar os perigos, fazer as nossas escolhas. Um dia, bem vermelhinho, explodindo de calor, de fulgor, de promessas sem fim, entraremos triunfais nesse pontinho rubro do nosso ponto de encontro. Com o mundo, connosco, com a vida. O nosso ponto... de encontro.

07 fevereiro 2010

Fantasias marginais...

Enquanto uns amealham como a formiguinha e tudo guardam, desde a velha moeda de colecção, às notas novinhas que servem para a compra de quase tudo, outros indiferentes às vantagens ou desvantagens, ao interesse ou não, de um esforço, muitas vezes em vão, seguem tranquilos o caminho do consumo, derretendo o que ganham, adquirindo bens e serviços, ou simplesmente gozando, em cada momento, um grão de vida, de seguida, sem cessar, que o mundo um dia deixará de girar.
Outros, nos mesmos trilhos da existencia parecem nem dar-se que existe isso de acumular, tornando seu, em cada acto aumentando, carregando, espreitando dessa sequencia de fazeres, um deslumbramento futuro num dia com a aquisição do que era sonho, com a realização de uma desejável fantasia, ou simplesmente, gozando o simples crescimento da coisa, sem pensar, que de tanto juntar, um dia tudo se perderá, se não gastando.
Alguns existem que não sabem onde guardar os valores mais preciosos, com um medo sofrido de ver perder tudo de um momento para o outro. Não confiam na banca, nos seguros, no colchão, no soalho da casa, na cova no quintal, nem em si mesmos. Vivem inquietos, medrosos, sentindo que todo e qualquer momento é um perigo real, que a vida é efémera, que nada está a salvo, nem dos malfeitores, nem do mau olhado, nem das intempéries, nem do desconhecido. Nem dormem, e muitas vezes já se sentem roubados ainda antes de o ser.
Uns vivem de sonhos, outros de dinheiro, ou de honrarias, ou de poder, de vaidades, de coisas ou grandes ou mesmo pequenas, das que existem de verdade e de muitas que nem sequer se garante existir. Mas vive-se, pula-se ou corre-se, ou simplesmente se vão arrastando os agentes, passo lento, como se ao chegar de uns sobreviessse a desgraça, e a boaventurança fosse real na vinda de outros.
Quem nada tem para colocar em algum lugar, nem possui poiso seguro onde reter ou fazer render o que gostaria de ter, aparentemente deixa de ter entre mãos imensos problemas, para existir apenas. Vive só, alheio à coisa, independente de haveres, imúne à pressão da avidez, do sentido da posse, enfim, como se não fora gente.
Mas existem, poucos, meio loucos, afastados de uma vida que se tem como padrão, são olhados de soslaio, alvo de curioso interesse, como de de seres de outra galáctia se tratassem. Incompreendidos, vagueiam na solidão, esquecidos, são apenas mais qualquer coisa que por vezes transita, ou se cruza no caminho de tantos, mas que não conta, não faz, e por essas mesmas duas razões, nem sequer são. Existem.
Nas suas incompreensíveis existencias acumulam silencios, também envelhecem como os demais, mas alheados de uma realidade que ignoram, que afastaram, que repudiaram mesmo, continuam existindo, dentro de um conjunto de acessórios que mais ou menos o estar os obriga, roupas que parecem em litigio com o tempo e as ideias de moda, uma espécie de calçado, multicolor e com imensas entradas de ar, que no mais rigoroso dos invernos nos parecem catapultar para um sol de verão.
A sabedoria da técnica que tudo tem de qualificar, chama-os de marginais, ou de sem abrigo, sem tecto, uma espécie de ratos de cano de esgoto que sobrevivem entre a abundancia e o movimento imparável da modernidade e da civilização. Em livros que a muito poucos interessam, se podem ver inúmeras linhas repletas de palavras e mais palavras, que, cheias de boas vontades, tentam explicar, e convencer, que existe gente assim, que se trata, em boa verdade, mesmo que tal para muitos seja pouco crível, de seres humanos genuínos, de gente que tem coração, que pensa, que fala, e que, mesmo não tendo muito acessíveis os lugares mais indicados para o efeito, também se acham obrigados, por terem corpos iguais aos dos outros, a certos rituais de necessidades a que os indivíduos denominados normais, também se sujeitam, no conforto da discrição.
Não guardam nada, estes seres da solidão, que vagueiam mais ou menos ocultos nas ruas das nossas cidades. É pouco crível que possuam contas bancárias, se livrando, deste modo, dos sobressaltos que tanta gente boa não deixou de ter quando os arautos da desgraça gritavam que os bancos iriam falir e toda a gente estava condenada a uma triste e profunda pobreza. Não possuem cofres atrás de quadros imitando obras de consagrados pintores, escondidos, nem dessas caixas móveis, de lata ou ferro, com rodinhas cheias de letras, que depois de mil voltas, coincidindo com a selecção da praxe, abrem, mostrando doiradinhas moedas e muitos brilhantes. Não têm carteiras polvilhadas com cartões coloridos de crédito ou débito, e divisões para separar as notas e guardar moedas. Nada têm. Nada guardam. Não possuem algo que necessite ser guardado, nem anseiam por possuir um local onde arrecadar tesouros. E vivem, acordam todos os dias, olham, sentem, andam por aí. Sem guarda, e sem medo da falta dela. Não guardam.
Muitos deles, creio mesmo que todos, e digo isto sem que busque algum merecimento académico com estas conjecturas, ou alguma notoriedade, nem mesmo me atrevendo a pensar em rabiscar esta tese em algum manual que ninguén vai ler, guardam, e creio que será a única coisa que de valioso possuem ainda, sonhos, coisas inimagináveis, que existem ou não, com ou sem cores, com ou sem cheiro, com ou sem calor, ou frio, ou brilho, coisas que existem dentro de cada um, que entraram e nunca mais saíram, que se anicharam para sempre dentro dessa existência que julgada perdida de tudo, guarda bem no interior de cada um, esse filão desconhecido que é força em cada manhã, que é vida em cada acordar.
Esses sonhos, os guardados há imenso tempo, os mais recentes, os desta noite, e da outra, e mesmo um que chegou numa tarde soalheira poucos dias atrés, permanecem em caixinhas transparentes, onde a luz, que sempre chega com a respiração em cada momento, faz projectar as cores do arco íris, dando vida a um conjunto de fantasias marginais que garantem a permanencia nessa marginalidade, o afastamento do que parece certo, a fuga das práticas que juramos fazer nossas e das regras a obedecer.
Esses sonhos estão entre cores na dita caixa de luz, que imaginamos, mas só eles, os que vivem escondidos na mais repleta solidão, num mundo que parece nem sequer existir, sentem, projectando estrelinha de vida, dentro de cada um. Caixinhas de luz e de cores. De vida...


02 fevereiro 2010

Flores para esse sonho detrás dos céus...







Estás para lá de tudo... ventos, céus, estrelas




Corro, olhos no céu
No jardim pálido onde me fiz prisioneiro
De um sonho cravejado com as luzes
Com o brilho incompreensível
E enigmaticamente impenetrante
Dos teus olhos

Corro, desvairado, de árvore em árvore
Como se de uma bandeira estivesse sequioso
Para levantar e acenar aos mundos
Para assinalar esta dependencia
Esta prisão de olhos levantados em busca
De manter-me sempre teu, escravo,
Submisso, vergado ao peso de um amor
Que nem sei bem se existe ainda.

Os ramos desnudos, hirtos, gelados
Apontam caminhos, desejos entre-cruzados
Labirintos onde se perdem beijos e abraços
Mas onde escuto em sussurro o respirar ofegante
Que sempre parece saltar de dentro de ti
Quando me foges.

Os ventos há muito perderam o sentido
E impetuosamente, com violencia, e dor
Exibem contorcionismos de raiva, e de fúrias,
Inibindo, afastando mesmo, a imagem, a sombra
Desse teu corpo, desse curvilíneo amontoado
De promessas nunca cumpridas.

Continuas para lá de tudo, de ti mesma,
E longe de mim, tanto, que as estrelas no seu brilho
Há muito deixaram de mostrar esse sorriso
Essa sedutora luminosidade do teu olhar
Brincando nas alturas, entre as rebeliões celestinas,
Com insignificantes explosões descontroladas
De coloridas pintinhas de sensualidade e desejo.

Recuso libertar-me da tirania dessa ideia de ti
Porque imaginar-te assim, por detrás do inexistente
Faz-me bem, faz-me sonhar, creio mesmo que existes
E sorris, mesmo que a sombra do nada te oculte de mim
E que o calor do teu abraço pareça uma gélida rejeição
E que mesmo esse toque, as mãos dadas, os dedos
Não sejam mais que os ramos ressequidos
Das árvores do meu jardim esmorecido de quimeras
Querendo perder-se em direcção do vazio.

Estás, teimosa e provocadora te mantens
Para lá de mim, e de ti,
Num alto que já não vislumbro, longe,
Para lá dos ventos, que já não me abraçam
Para lá do céu que esconde o sol de um amor perdido
Para lá das estrelas ténues, mortiças, onde não estás.

Mas continuo por aqui, neste jardim prisão
Recusando esquecer ou perder o sonho de um dia
Ou de tempos e espaços sem limites
Onde ainda creio, vou encontrar-te
Por detrás dos ramos das árvores do meu jardim
Vinda desse teu mundo, braços abertos
Sorriso, calor, sonho, ternura
E nos aprisionaremos em algum lugar
Para lá de tudo.