17 janeiro 2010

Recuso o Natal de vinte e quatro horas


Mesmo que teimem
Mesmo que teimosamente insistam
Contra tudo o que seja ou pareça
Contra tudo que se funde em ciência
Ou mesmo na sabedoria dos mestres
Recuso!

Vejo em cada momento bem de fronte de mim
De um modo evidente e claro
Que isso do Natal é apenas um clarão
Um instante de magia
Um instantâneo fluorescente
Que não poderia apagar-se nunca
Que devia estar, sempre, aqui e ali,
Com cada qual, em cada lado, nos mundos

Recuso o amor empacotado hermeticamente
Por vinte e quatro horas de vida
Uma incubação de acordo com a carteira
E uma morte efectiva directamente
Relacionada com a memória de cada um

Recuso que se fale de solidão, se estenda a mão
Num espaço limitado de tempo
Enquanto dura o brilho das estrelas de enfeites
Rejeito que o Natal seja um relembrar anual
Em jeito de memorando, do essencial, num dia,
Quando tudo o que se recorda, é amor,
É vida, é esperança, somos nós, que queremos sorrir,
- nunca deveria ser imagem, quadro, cartão de intenções
- mas uma bandeira, um caminho, uma verdade
Que deveria ser simplesmente Natal toda a nossa vida

Sem músicas, sem prendas, sem missas de galos ou de reis
Devia ser, o beijo, o abraço, o sorriso, o olhar nos olhos,
A sopa à mesa, o pão, o calor da lareira e o nosso

Sem músicas nem solidão, sem prendas nem enfeites
Que o amor não se compra enlaçado em fios de mil cores
Mas de gestos, de sentimentos, de ser e estar entre os outros

Recuso esse Natal colorido e fantasioso, fechado, aprisionado
Em caixas que se escondem nos cantos da dispensa
Das nossas acções, do nosso olhar, afastado, esquecido
Enquanto passamos indiferentes mais uns trezentos e tal dias
Ao lado do que não tem, do que sofre, do humilhado
Ignoramos, com os nossos silêncios espezinhamos
Com o nosso desprezo atormentamos
E seguimos felizes e tranquilos
À espera de um novo Natal que seja paz q que seja amor
Seguimos todos esses dias esquecidos de nós
Que ignorando, que espezinhando, mirramos o nosso caminho,
Escurecemos a essência que existe dentro de cada um
E nem com as novas luzes que certamente chegarão no próximo Natal
Conseguiremos tranquilizar o nosso coração
Assegurar a nossa alma inquieta
De que somos diferentes, somos homens, civilizados, gente
Escurecemos tudo, o mundo, a nossa vida, o nosso olhar
Mesmo, com o presépio, com o renovado menino
Com os reis, com a paz que reivindicamos para amarfanhar dentro de nós
À força, com muitos sacos repletos de prendinhas, e uma ou outra esmola

Posso ser louco, não ter a noção nem do tempo nem do espaço
Mas recuso, grito alto o meu mais vivo repúdio por Natais de um dia
Quando o homem precisa de ter dentro de si essa chama toda a vida
Recuso, não aceito, olho o calendário e vejo Natal, hoje,
Amanhã é Natal
Depois de amanhã, vejo com todas as letras, Natal de novo
E depois, depois, depois… cai a neve, o pai natal saiu com o trenó
Sai todos os dias, e voa pelos ares, deitando em cada chaminé
Um pingo de amor, uma chávena de respeito, uma caixinha de dignidade
E tudo isso, é de toda a agente na manhã seguinte, ao acordar,
Quando sai à rua, quando olha o vizinho, quando saúda os companheiros
Quando ama. Que lindo podia ser o Natal.


Sem comentários: