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29 dezembro 2009

Aurora (1984)



Um dia, tão longínquo que perdi quando ocorreu, apenas arrisco e mesmo assim com algumas probabilidades de errar o ano, possivelmente em 1984, pintei a guache numa folha vulgaríssima de papel A4, um arrazoado complexo de coisas, dispersas ou vogando num ambiente que parecia marinho, e de que resultou um modesto quadro, a que pus o nome de “Aurora”.

Parecia-me, que ali, entre um verde azulado, salpicado de um amontoado de figuras mais ou menos volumosas, umas mais esguias, outras mais finas, umas ali e outras aqui, em baixo ou em cima, nascia o princípio de algo. Em nada me recordava a deusa grega do alvorecer, é bom aclará-lo, mas podia, em bom rigor, desse que se conhece dos que inventam com palavras, assegurar que ali, bem à frente dos meus olhos, dava-se um feito que poderia assemelhar-se ao que ocorria também no nascer do sol.

Daí o “Aurora” que ainda hoje tenta timidamente embelezar um dos cantos da sala onde normalmente trabalho, escrevendo, lendo, pesquisando no meu computador, ou cuidando das fotos que me atrevo a colocar, cada vez que me faz falta, a ornamentar renovados espaços, novos salpicos de ousadas frases querendo ser poesia, ou ideias, que sem norte, de qualquer modo me vêem à caixa dos pirolitos.

Nascia então, esse começo que parecia descoberta, de um mundo irremediavelmente novo, com a ilusão de algo que seguramente se tornaria uma realidade que não tardaria em alicerçar-se, tornando-se ser, existência, e transformando a minha vida solitária, num distinto mundo, plural, colorido, fantástico mesmo, e que podia facilmente adivinhar, e mesmo ver, projectar, mesmo à minha beirinha, um homem que acorda e se vê outro, mais rico, mais pródigo, mais integrado, mais de, todo ele, de uma socialização exigida, obrigatória, de um grupo imenso polvilhado de regras e comandos.

O homem só, ou é um deus ou um demónio, e cruzes canhoto, os demasiados, de qualquer um, para o bem e para o mal, exigem que se busque e rebusque, nos caminhos da vida, sejam eles mais ou menos, ou mesmo nada acidentados, que se encontre quem connosco caminhe, e que as normas estabeleceram, deverá ser de sexo oposto, e que desse cruzamento, se fecundo, deverá surgir um dia novidade.

A “Aurora” surge assim como o fim da crise, ou a promessa dele, o termo de um peregrinar só, de um caminho silencioso, de um vazio, perspectivando, de uma assentada futurista, que se conjugavam por fim milhentos factores capazes de garantir, o fim de uma solidão de milénios, e a concretização, já se conhece, a prazo, mas de uma nova, ou mais que uma, aurora, ou no caso, sendo-o, auroras.

Seria o aurora nascimento, resultado inequívoco da tal relação, consequência ela do fim do isolamento, por via de um ajuntamento certo, que, respeitando as leis em vigor, por ser com elemento de sexo distinto, asseguraria como se de um mero exercício de lógica se tratasse, um fim, que a bem do mundo e no respeito das complexidades, seria, um novo começo.

Mas a “Aurora” foi também mais que uma simples visão científico-técnica, se assim se pode chamar, a esse processo que se podia intuir, e que as ciências naturais e outras artes tão bem explicam, foi também um sonho, algo quimérico que parecia sem sentido, mas que me deu alento e me fez bem. Com luz, com milhões de tonalidades de infinitas cores, essa irrealidade à solta, me catapultou para um mundo fantasioso onde, sem que me desse conta, empurraram de todos os sentidos e orientações para dentro de mim, tornando minhas, coisas como um fígado, ou um rim, ou o coração, órgãos que é bom de ver, são essenciais à vida, novos corpos ou seres que se instalando em mim moldavam quereres e sensações desconhecidos, como se uma enigmática essência vinda não se sabe bem donde, se apoderasse de mim.

Acreditei que podia voar num céu de todas as cores, livre, e que todos os horizontes poderiam transformar-se, com um banal desejo, num porto de abrigo tranquilo e hospitaleiro. As asas poderiam levar-me sem hesitações por todo esse complexo de terras e mares que Deus criou para todos os homens, e poderia desfrutar de belezas sem fim e deliciar-me entre maravilhas. Seria a aurora náutica quando elevado sobrevoaria as ondulações preguiçosas dos mares, que se transformaria numa aurora terrestre de vale ou de montanha consoante atravessasse áreas de terras baixas ou tivesse de pular ao cume de uma cordilheira montanhosa.

Acreditei que poderia vislumbrar a construção de um mundo mais humano, mais justo, mais solidário e mais fraterno e que encontraria aliados unidos e poderosos abnegadamente empenhados nas lutas em defesa das causas mais nobres; o estado de direito, a justiça, e afinal, a própria razão. Poderia deste modo olhar sociedades de homens onde a dignidade da pessoa humana não se quedaria mortiça e bolorenta entre páginas carcomidas de velhos manuais de leis, onde a exploração impiedosa y desumana do homem pelo homem deixaria de ter qualquer sentido, e onde a miséria e a fome se transformassem em más recordações para todo o sempre enterradas, afastadas do mundo e da vida. Foi uma aurora mágica essa que empurrada entre constituições políticas, cartas de nações, toneladas de normas e leis, poderes e mais poderes, direitos, e governos de todos os lados do globo, boas intenções, moralidades e ancestrais éticas nascia também entre o verde e o azul, e todas essas intrigantes coisas que pululam no pretenso quadro de há tantos anos.

A vida e o mundo são compostas de tantas auroras como os dias que se sucedem em cada manhã. E cada aurora é seguramente o sonho que trás ânimo e vida, luz e cor, à nossa existência enquanto homens. Por cada sonho, por detrás de cada imaginação que nasce dentro de nós, podemos ver, lá longe, um brilhozito que derivando de uma simples e estrelada fantasia vai galgando incomensuráveis superfícies e tudo iluminando. Muitas auroras, como afinal a realidade, não deixam de ser apenas um conjunto imenso de intenções, de desejos, e vão se arrastando movidas pela cegueira dos sonhos que não desistem de perseguir a luz, e vão sobrevivendo na fantasia de campos de espigas doiradas onde nunca chegou o sol, e teimam existir quando não adquiriram corpo, nem possuem qualquer força, nessa essência magnífica que nem estamos seguros que possam ser realidade.

A “Aurora” que pintei, ainda está colocada por detrás de um vidro barato e sem qualquer moldura num canto da sala onde ainda tento, mas já sem o vigor de outrora, acreditar que o mundo gira inevitavelmente para um bem mais próximo, que a natureza é a nossa vida, e como tal nós asseguraremos, contra tudo e contra todos, a sua preservação, e que o homem é o bem mais rico que existe ao cimo da terra. Ainda creio acreditar que muitos sonhos podem tornar-se realidade desde que observados alguns quesitos fundamentais, entre eles; acreditar-se piamente e lutar-se por eles, e que depois de cada noite nasce sempre uma manhã que será fonte de esperança.

A “Aurora” continua sendo esperança, mesmo que a solidão ainda seja aquela de outrora, e ainda exista o mesmo acreditar, no homem, na vida e no mundo, mesmo que tudo isso, esteja afinal, mais ou menos igual ao tempo, em que para poupar dinheiro para decorar a minha caverna de jovem solitário, tenha tido o sonho de pintar em tons de verde azulado um nascer, que necessitava então, como necessito hoje.

Ao colocar alguns pormenores desse “Aurora” no meu blog Kampus de Ideas acabo por verificar que mais de vinte anos passados, ainda existe o desejo de voar, ainda sinto que sem um mundo preservado para o homem adiamos o tal lugar onde todos podem viver livremente e com dignidade, sem violências, em paz, e que o homem não deve estar só, tendo direito ao amor, à solidariedade, a sentir-se bem, entre os demais.

A “Aurora” mantêm-se firmemente aquilo que é; o nascer, a luzinha lá bem no fundo, brilhando como um fiozinho, a ganhar vida, sonho, força, corpo, em cada respirar, em cada alvorecer. Não termina nunca enquanto existir um ser que pensa. É cada um de nós, é cada momento, é a própria vida, o ser, o crer, … é.