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15 abril 2009

Destruí o meu sonho



Matei o meu sonho


Aconteceu ter tido um sonho muito belo
Nasceu, pulou fora, ganhou corpo e viveu
Como enfim, todas as existentes coisas
Um pouco por todo e qualquer lugar
Mesmo as desprovidas de qualquer beleza



Tive um sonho maravilhoso
Que depois de nado teimou crescer
Ganhando um corpo imenso
E múltiplas formas,
Tomando amplas suas energias e forças
Conquistando atenções e interesses,
Foi um sonho com tudo para poder ser
Realidade ou ilusão, podia ser, estar,
E foi assim, um projecto de caminho
Foi trilho entre bosques sem fim
Emaranhados de castanhos e verdes
Foi escarpa agreste vinda do céu
Foi ravina, foi montanha

Tive um sonho luzidio
Vivo, alegre e sorridente.
Feliz com a ideia de permanecer
Teimando em querer respirar
Ganhar forças e ter ar
Agarrando-se às folhas e aos ramos
Da árvore erguida para uma vida
Verde ainda, cheia de vigor



Tive um sonho divertido
Que queria manter-se assim
Quimera fresca embrulhada nas nuvens
Fantasia pulando entre estrelinhas
Castelo no ar, vigilante, no alto
Quando, brincando, buscava
Trocar todo esse sentimento indistinto
Por alguma coisa, tornando-se ser
Fazendo-se outro, com nova de pele

Tive um sonho desperto, existente
Sem corpo, verdade, parecia nada
Não podendo ser admirado por todos
Sendo um imaginário apenas meu
Que me enchia de paixão e me dava alento
Mas que não podia formar coisa, nunca,
De modo claro, como qualquer corpo
Era meu, era belo, mas mantinha-se ilusão



Passei depois a ver que tinha um sonho
A bocejar, com sono, que acordaria por fim
Prometendo ao levantar alegrias e encantos
Revelando infindáveis paraísos de delírio
E que não tardaria a mostrar-se sublime
Ao submeter-se à passagem da imaginação
A um existir, ser, uma coisa bem real.

Acabei por ter um sonho alienado
Que ocorreu quando se viu pressionado a ser
A tornar-se verdade, a ser coisa real ou concreta
Nunca tendo sonoridade, sendo ouvido,
Nem tendo sido visto, por quaisquer
Não gritou, não correu, não abraçou
Nunca chegou a ter corpo, nem ser coisa nenhuma
Porque nunca deixaria de ser o que era
Ilusão caprichosa iludindo sentidos



Tive um sonho…

Tive mesmo, creio, esse sonho imenso
Onde se agarraram muitos outros sonhos
Como se fosse um céu sem fim onde as estrelas
Trocavam beijos luminosos e saudavam a lua
Tive tudo isso que perdi, desajeitadamente
Querendo transformar o alento incito num delírio
Numa realidade impossível de se dar



E, esse sonho foi miragem de ti,
Cópia autêntica de corpo e alma
Lá longe, por detrás dos corpos voadores…
Foi o teu olhar brilhando que nem sóis, que olhei,
Esses lábios que julguei praias
Alimentando os beijos vindos do mar
E provocando constantemente o desejo
De poder colocar neles, os meus.

Essa boca que desejei invadir
Em agressões intensas de amor
Todo esse corpo que vi e revi
Num imaginário de quente entrega
Num campo húmido
Onde se perderiam por fim
Num grito ensurdecedor
Essas explosões de amor



Esse sonho só pode viver o tempo
De uma pequena trovoada de verão
Caindo ao solo com as folhas das árvores
Envolto em poeiras que o vento
Espalhou desordenadamente
Nele catapultando carícias sentidas
E impossíveis de esquecer, com as imagens
Que tento guardar ainda, e que construí

Essa fantástica ilusão que tive
Durou o tempo de um não, um só não,
Viveu apenas enquanto alimentei uma ilusão
Foi um raio entre escuras sombras
Em agitada noite de tormenta
Viveu apenas um rápido instante
Não permitindo, alimentar-me
Nem de calor, menos de beijos



Eu tive um sonho, pequeno e grande,
Que de verdade nem se pode medir
Sendo efectivamente algo fugaz
Difícil de classificar ou rotular
Um inexplicável conjunto de inexistências
A que, irreflectidamente tentei dar vida
Dar tudo, até uma própria vida,
Fazer exclusivamente meu.

Com esse descontrole insensato
Matei, destruindo esse sonho que tive
Que ainda poderia existir e dar-me alento
Enquanto visão idílica de magnífico
Que deveria manter comigo a todo o custo
Para intensamente desfrutar, nela e em mim,
Para ver e tocar, para sentir e amar,
Para usufruir, junto de todos, esse meu ser



Acabei matando…o sonho que existiu e que viveu
Belo, forte, intenso, quis guardá-lo para mim
Ousei acalentar a ideia de transformá-lo em coisa existente
Não tendo percebido todo o pujante fulgor
Toda uma força espantosa sem quaisquer limites
Que um sonho dentro de si transporta, e tem de maior,
E destruí, essa fantástica essência, ao pretender mudar
O que ele tinha de melhor, e lhe dava vida, inexistir.

Eu asfixiei até reduzir a pó a ilusão em que vivia,
Maltratei a quimera que simplesmente me sustinha
Até ficar sem coisa nenhuma, assim, só, sem nada
Porque teimei fazer verdade o que nunca existiu,
Mas se encontrava comigo em todos os momentos,
Inexistindo, mas me prometendo carícias, não sendo,
Mas estando sempre ao meu lado, no meu sonhar.



Porque matei essa ilusão que me mantinha vivo?
Porque matei esse sonho onde adormecia e acordava
Em todos e em cada um, dos dias do meu viver?
Porque, tanto o desejando, destruí o meu sonho?...

1 comentário:

Liliana G. disse...

Nunca sabemos por qué matamos nuestros propios sueños, pero lo cierto es que esa fuerza que una vez los hizo vivir, sirve ahora para forjar nuevos horizontes y nuevos sueños cargados de esperanzas.

Tu poema me ha emocionado Pedro, lleva un trozo de tu alma pegada a sus versos.

Besos, querido amigo.